terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

RHYTHM & NOISE - Chasm's Accord - USA - 1973/1985

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Essa é uma história muito interessante para ser contada, aliás,
me sinto na obrigação de contá-la, pois na minha maneira de
entender, ela elucida bastante coisa à respeito de um momento
muito revolucionário nas artes e, aquí espefícicamente falando,
na música...

O que poderíamos chamar de uma evolução da liberdade de
pensamento e a loucura pós DADA/Futurismo/Surrealismo elevada ao
extremo, aliada às evoluções tecnologicas evolui na criação definitiva
de uma música construída com ruídos,
parindo assim a tão falada "Música Concreta" na França.

Num momento pós-guerra, a nação alemã reconstrói seu auto orgulho, e
cria uma nova tradição baseada na ciência e na tecnologia.
Isso também afeta a música produzida alí.
Também sob influência das vanguardas, nasce a "Música Eletrônica Pura".

Paralelo à isso, porque a História não é um "TIMELINE", a música pop
também se transforma por influencias diversas como Política, Moral,
Contra-Cultura, Tecnologia, Revolução Sexual, a Luta contra o Racismo,
Liberdade Juvenil de Expressão...

As duas vertentes se encontram (vanguarda e pop) não por acaso quando
toda essa eferfecência sócio-político-cultural parece que vai explodir.

Uma grande transformação se descortina, alguns vêem isso com grande
otimismo, mas também há quem sofra e perceba tudo como uma grande
máquina trituradora da natureza e do planeta em que vivemos.

Logo logo a idéia do paz e amor, do sexo livre são tragados pelas garras
do consumo, do massacre capitalista que produz guerras e uma grande
onda pessimista começa à se formar naturalmente influênciando a arte.

Nesse coctail ácido de vanguarda e pessimismo floresce uma expressão
musical baseada na dor, no medo e na descrença da humanidade.
As drogas "abrem a mente", mas também se tornam a porta do inferno.
A cultura pop aliada ao capitalismo virou um excelente instrumento do
controle mental e remédio para as revoluções políticas e sociais.

Ao contrário do que a maioria dos "especialistas" em música acham,
a chamada "Música Industrial" não foi originalmente uma evolução extremista
do PUNK, muito menos uma subdivisão do Heavy Metal.
Suas aspirações, conceitos e motivações estão totalmente conectados ao
percurso descrito por mim anteriormente.

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Várias estórias formam a Historia dessa linguagem musical.
Uma delas, e mais desconhecida para a maioria dos interessados
se passa em Seatle... uma cidade bizarra...
Uma dupla maluca de "neo-hyppies", Naut Humon e Will Jackson
fundam um grupo chamado RHYTHM & NOISE no final dos anos 60.
Seus interesses estavam mais até então na performance, tecnicas
teatrais e experiências sensoriais com o público.

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E realmente fizeram com aquela galera "aberta" e descolada
verdadeiras barbaridades e atrocidades, que incluiam desde
propor caminhadas em percursos complexos que duravam
horas onde as pessoas se perdiam, passavam fome e se asauriam,
até situações de risco real a integridade física do público.

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A descrição exata pode ser lida no encarte deste cd que se
propõe a resumir suas principais ações e mostrar a evolução
da música que produziram.

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Dor, escuridão, solidão, medo eram matéria bruta para seus
trabalhos.

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Mas foi em meados de 1973 que o grupo se solidifica como
um grupo de experimentação sonora, absolutamente
reverente e atento ao que acontecia na vertente erudita.
Isso não deixou nunca de ser apenas uns caras jovens,
antenados com as transformações estéticas na música,
insatisfeitos com o sistema mercadológico vigente.
Ser apenas uma galera que queria ir além dos limites, não
faziam deles eruditos, mas não empediam que ruminassem
tudo aquilo com seu próprio processador mental.
Como disse ironicamente Frank Zappa: "São os filhos da música séria."

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Em 74 com a formação: Will Jackson, Z'ev, Naut Humon e Rex Probe
eles costumavam improvisar percutindo sucatas, provocando
atrito com pesadas barras de metal, fervendo um complexo
sintetizador modular Buchla e reprocessando o som de instrumentos
de corda e arco eletreficados. Uma autêntica mistura de tecnologia
com o ato primitivo de bater em objetos que podem emitir grande ruídos.
Uma vez fizeram uma performance que chamaram de CELLAR M,
dentro de um edifício abandonado cujas paredes se interligavam
por buracos. Tal espaço gerava um incrível eco natural de 13 segundos,
que interferia e modificava auditivamente a massa de ruídos
provocada por eles. Daí veio um questionamento sobre, COMO O
AMBIENTE FÍSICO PODE INTERFERIR NA COMPOSIÇÃO?
Basicamente esse tipo de performance não era apresentado
abertamente ao público. Funcionavam mais como um laboratório.

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Mas o momento mais memorável da História da banda foi em 1980
com a primeira apresentação do grupo como show musical.
A divulgação foi feita com cartazes e adesivos colados nos telefones públicos
mostrando uma belíssima arte colagem onde, um ser com feições humanas,
mas formada por peças e equipamentos eletrônicos, mecânicos e industriais,
bébe um líquido que contém algo à mais. Como um comprimido ou uma droga.
A única coisa escrita na imagem era "RHYTHM'N NOISE DEPLOYS e um número
de telefone que as pessoas ligavam pra saber algo mais à respeito daquela
intrigante imagem que parecia divulgar algo.
Quem ligava ouvia uma gravação bizarra que explicava coordenadas de onde
haveria um show especial, que no fim das contas, se situava no final da cidade,
onde tudo que se encontrava eram destroços e antigos galpões abandonados.
Ao chegar, o público se confrontava com grande cercas elétricas e cães furiosos.
Pessoas misteriosas ortando Walkie-Talkies indicavam por onde as pessoas podiam
passar e aguardar.
Nenhum sinal de show se mostrava, apenas os ruídos insistentes dos Walkie-Talkies.
Num certo momento um enorme portão de metal começa à se abrir, sons eletrônicos
começam à preencher o ambiênte de forma enigmática e uma enorme cortina de
fumaça impede ainda que todos possam ver o que realmente acontece.
Um monte de projeções e telas de TV começam a ser identificadas mas o seu
conteúdo não explica absolutamente nada.
Ao centro do palco, uma cabine tecnológica emite ruídos eletrônicos e concretos
combinados à rítimos ritualísticos ensurdecedores divididos
em 10 pontos diferente no ambiente.
Essa performance show foi chamada de "CRISES DATA TRANSFER".

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Firmados na cena como uma banda, lançam seu primeiro disco CHASMS ACCORD
com a participação de:

Naut Humon: controlando manipulando todo o som;
Z'ev: Instrumentos elementais (que poderíamos chamar de sucatas)
samples e Beat Box;
Diamanda Galás: com sua voz pré-gravada e reprocessada,
aliás, ela citou Naut Humon como sendo a única pessoa capaz
de realmente entender e apreciar o seu trabalho;
Desmond Shea: nos percussivos, teclados e engenheiro assistente;
Alaric: engenheiro de som, Tapes, coisas acústicas (Não deixa claro o que)
mais teclados e bateria;
Paul Hagan: assobios de fundo (?), e tambores de tocos (esse manja, hein?);
Michael Belfer: guitarra reprocessada na música "Schismatic".

O disco foi lançado ainda na era do vinil pela Ralf Records, selo do grupo RESIDENTS.

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Posteriormente, baseado neste repertório, se apresentaram ao vivo com
Public Image Inc., Einstuerzende Neubauten, Survival Research Laboratories,
a própria Diamanda, The Residents e Snakefinger.
Era um momento em que já se falava aos quatro cantos do mundo sobre
o que se tornou conhecido como "INDUSTRIAL MUSIC".
Será que dava pra chamar aquilo de ROCK?
Naut Humon uma vez disse que se interessava por Hendrix pelo ruído
que ele acrescentou ao blues. Isso o fez pensar que:
"QUALQUER MUSICA QUE VOCÊ GOSTE, DEBUSSY POR EXEMPLO, SE OUVIDO
NUM VOLUME MUITO ALTO SE TRANSFORMA E MUDA O SEU SENTIDO."
Esse assunto era de grande interesse e pesquisa desde o início dos
anos 70.

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O disco aquí postado pra vocês se trata da versão em CD lançada pelo selo
ASPHODEL, não coincidentemente de propriedade do Sr. Naut Humon.
Na imagem superior vc pode ter um guia mais completo sobre as obras
com informações de quando foram produzidas.

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É uma edição bastante caprichada não resta a menor dúvida, mas com
certeza esse é um disco que merece ser conhecido pelo maior número de
pessoas possível e ouvido com muita atenção.

selo

Mas como eu dizia, o selo ASPHODEL é de propriedade de
NAUT HUMON... péra... que nome engraçado...
com certeza não é o seu nome verdadeiro, é um trocadilho
com NOT HUMAN!!!!!!!!!
Analizando tudo que fez no passado e sabendo que mantêm
este selo que deve dar tanto prujuízo quanto a TRAMA no Brasil,
supõe-se que deva ser alguém muito rico.
Todo o aparato tecnológico para produzir música que já tinha
no início dos anos 70 já é algo com valores cabulosos...

Ele é também um profundo conhecedor de música bizarra.

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experimente aquí

yupo-stamp
Post com a colaboração do Mestre Yupo

3 comentários:

theroombook disse...

Albuns da National no ar http://tinyurl.com/bnuvyk

roberto disse...

gostei de sua analise, especialmente no que vc refere a origem "erudita" dessa "música". Os agentes do pop querem, atodo o custo, afirmar que a música erudita é coisa de velhos arcaicos e escleróticos. Ledo engano.

Marcelo disse...

Audição impossivel de se descrever com palavras.

 
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